quarta-feira, 24 de abril de 2013

Leitura: Perseguição, de Tânia Alexandre Martinelli


            Ontem, quando cheguei em casa, li um dos paradidáticos que fazem parte do meu trabalho. Qual não foi minha surpresa quando me deparei com uma história mais que doce, aliás, agridoce para tentar ser mais precisa.
            “Perseguição”, livro de Tânia Alexandre Martinelli, aborda um dos temas dessa fase tão apaixonante quanto dolorida que é a adolescência.
            Terminada a leitura, fiquei pensando em quantos Leos existem por aí, meninos que se calam diante da violência do bullying que sofrem. Mas, depois, me peguei pensando nos causadores dessa violência e me deu vontade de fazer algo que essa geração está precisando: umas boas palmadas na bunda!
            Queridos, se manquem! Impliquem com alguém que possa revidar, experimentem desse veneno que vocês implantam nas cabeças de alguns pobres que não conseguem – sei lá por que, mas sei sim... – se defender.       
            Aliás, se um dia eu presenciar uma cena de início de bullying meu conselho será para encarar o medo do agressor e, cara na cara, olho no olho, perguntar bem baixinho, o que ele vai querer? Qualé, mermão? Baixa a tua bola aê, rapá, que eu não vou dar bobeira não, se você vier, vai ter...
            Nem sei direito o que vai ter porque corro léguas de distância de demonstração de violência, mas eu aconselho perguntar e colocar o ser humano no lugar que lhe é devido! Meninos e meninas, não sofram como o Leo e a Malu, façam-se respeitar! E, vocês, covardes agressores, SE MANQUEM!!!

Viajar


Viajar consiste em passar horas em filas de aeroporto, esperar que as pessoas acomodem suas imensas e supostas bagagens de mão onde elas não cabem, ouvir choro de bebê em voos noturnos (tadinhos!), iludir nossos embrulhados estômagos com um comida medíocre servida no avião, dormir em posições jamais imaginadas desde que saímos do útero e em colchões de hotel que tem qualquer cheiro menos aquele que só nossa caminha tem...
...viajar não é mágico nem encantador, é real!
É um real teletransporte da nossa vida cotidiana, organizada (ou não!), previsível e cronometrada - pois com esse trânsito de Fortaleza pré-Copa impossível perder um segundo senão já viu, atraso na certa!
E viajar também é sugar a cultura dos outros e morrer de inveja e lamentação quando vemos que não somos tão patriotas (Buenos Aires, vc me dói...) ou tão organizados (Disney, que saudades de vcs!) ou de praias tão deslumbrantes que duvidamos que sejam reais (Aruba, te quiero!)....
E se o teletransporte é feito de carro ou ônibus, para uma cidadezinha linda que guarda a melhor parte da sua infância então... Bom, o coração derrete! Amo a terra onde as pedras estalam, minha querida Itapipoca!

A deusa que morre


- Ela morreu! Morreu! Morreu! Morreu...
            Acho que o seminarista gritava pela nave da igreja tentando se convencer da verdade. Mas aquilo não era possível: a deusa que, secretamente, adoravam, havia morrido.
            A camisa dele amassada para fora das calças, a calça salpicada de lama, os cabelos desgrenhados... Tudo indício de que, na cabeça dos homens da igreja, a coisa  não ia muito bem. E agora?
            Sem saber direito o quê ou como fazer, pendurou-se na corda do sino que ia do chão ao alto do campanário e começou a balançar-se. O movimento para lá e para cá, o fazia pensar nas circunstâncias do ocorrido: como teria sido? Fulminantemente? Não, não, imediatamente descartou essa hipótese, o desgaste d´Ela era velho conhecido, aliás, aquilo já era de se esperar...
            Elaborou novas hipóteses, conjecturou até mais não poder, até a cabeça arder de tanta dor de pensamento. Desabou exausto no chão, estava tonto de forçar os neurônios. Largou-se no chão e deixou-se ficar.
            - Como pode? Como pode? Por que fizeram isso com Ela? Aliás, fizemos... Vimos a coisa acontecer e não fizemos nada, então... Então, também somos responsáveis, somos cúmplices! Somos mais que isso, somos coautores!  E agora? E agora? Será o nosso fim? Será que perderemos nosso poder para sempre? Não merecemos! Não merecemos!
            As lágrimas escorriam pelo chão de mármore... Lavavam aquele chão que tantas vezes ouvira a deusa em ação...
“Oh, Deusa-Língua, Mãe-Latim, retorne do seu túmulo e nos presenteie com sua magnitude”, pediam os últimos pensamentos lúcidos que passaram pela cabeça do seminarista. Era seu último apelo!

sábado, 12 de janeiro de 2013

No nosso jardim

       Quando plantamos em nossa casa um pinheiro, que nem é típico da nossa região, não poderíamos imaginar que prazer de confusão viraria nosso jardim. Bom, não temos um jardim de verdade, afinal vivemos em uma típica casa de cidade grande, puro cimento ao nosso redor, mas arrancamos alguns quadrados do chão e lá colocamos nossa muda de pinheiro.
       Depois disso, com o pinheiro quase da altura da casa, já presenciamos cenas muito peculiares, construções caprichosas de ninhos delicados e firmes, brigas entre os donos dos ninhos e alguns pássaros maiores, diga-se de passagem que o bem-te-vi é o mais arengueiro de todos, acho que devido ao seu tamanho tipo "galinha". Sim, eles são malhados perante o tamanho de alguns e se valem disso pra fazer a maior confusão. 
Nessas horas de confusão, que costumam ser as primeiras do dia, geralmente meu marido levanta e vai curiar de todas as janelas possíveis o que está acontecendo o que faz com que um raio de sol fulmine meus olhos astigmáticos.
     Outro dia presenciamos por várias horas a tentativa persistente dos pais pássaros tentando ensinar ao seu filhote como se deve fazer. Coitado, me coloquei no lugar dele e me vi no alto de um edifício de uns 20 andares com minha mãe insistindo que eu era capaz. Sim, isso deve ser a vida!
     Atualmente, temos um ninho numa palmeirinha que chamamos de Chico César devido à sua aparência. Os pássaros que o fizeram são conhecidos no interior como lavandeira. Não faço a menor ideia do nome científico.
Há uma frase, creio que do Quintana, que fala sobre não corrermos atrás das borboletas, mas plantarmos uma flor no nosso jardim que elas virão até nós. No caso, não foi no sentido metafórico, nossas plantas atraíram mesmo alguns visitantes e a confusão lá fora pelo loteamento dos melhores galhos está formada.
      Espero que nossos "sem-galhos" não saiam daqui tão cedo, que continuem fazendo suas necessidades no carro e na borda da piscina, que nos acordem com seus barulhos de namoro pois não há despertador melhor, e que a natureza nos ensine, e a nossos filhos também, que ela merece respeito e cuidado.

1996 (com Fernando) - continuando a parte II


             Fernando é tímido, mas atrevido e é quase impossível conviver com ele. Ele não se concentra nas aulas, fica inquieto o tempo inteiro e eu poderia passar todas as aulas lendo os bilhetinhos que ele escreve e passa por baixo do meu braço, mas não posso, tenho vestibular no final do ano, tenho uma meta e ele não faz a mínima ideia de onde quer estar daqui a cinco anos.
            Já tive que salvá-lo da coordenadora algumas vezes, a mais recente quando um garoto novato implicou querendo puxar assunto comigo. Nem sei quem é aquele garoto, acho que só o vi nesse dia, quando estava chegando à escola e ele apareceu na minha frente me chamando de qualquer coisa, acho que uma delas era gatinha. Eu queria rir, pois o garoto me pareceu bem idiota, explodiria numa gargalhada na cara dele, mas o Fernando chegou antes e ficou entre mim e o garoto. Não consigo lembrar o nome dele...
            O resultado foi quase briga, pois o Fernando não era muito diplomata. Não consegui ouvir o que ele cuspiu na cara do garoto, mas sei que a expressão dele não era das melhores. Cinco minutos depois estávamos os três na coordenação e ficou parecendo que éramos todos grandes amigos, que não passava de um mal entendido, mas sei que a coordenadora anda de olho no Fernando.
            Naquele dia não achei engraçados nenhum dos seus bilhetinhos assim como a aula de Física também não foi. Refletia se queria realmente aquele moço perto de mim, ele era um ímã para confusão, aliás, parecia gostar delas. Como eu poderia voltar para minha bolha de solidão com ele por perto? Como focar nos estudos se o Fernando não fazia conta deles? No lugar dele eu não estaria tão desleixada com a situação, afinal ele já estava repetindo!
            O que eu faço com esse... moço insuportável?
            No final das aulas, enquanto arrumava minhas coisas na mochila, ele falou:
            - Você nem riu de mim hoje... – o tom de voz era amuado, quase uma criança que culpa a outra por uma brincadeira que não deu certo. – Nem deu atenção às minhas piadas... O que fiz de errado?
            - Nada, eu só preciso estudar. Tenho um vestibular no final do ano e acho que você também. – isso não era da minha conta, mas porque falei?
            - Eu sei, mas não adianta, não vou passar numa pública. Terei que aguentar mais um tempo sendo sustentando pelos meus pais. – hum, posso entender isso, mas não concordo.
            - Ok, então, mauricinho! – e virei as costas para ir embora.
            Dei apenas um passo e ele colocou a mão na parede barrando minha passagem. Como assim? Ele vai querer brigar comigo também?
            - Olha aqui, não zomba de mim, sua “intelectualzinha” metida! Adoro você, mas para passar minha burrice na minha cara já tem gente demais. Quero você por perto para fazermos coisas divertidas, não para você ficar zombando de mim. – ele disse quase explodindo de raiva, mas sob controle. Soube naquele momento que sua raiva podia ser controlada caso ele quisesse. Resolvi testar.
            - Olha aqui você, seu mauricinho arrogante! Se você vai morrer de pena de si mesmo, vá para longe de mim, mas, caso queira sair da sua zona de conforto, continue por perto e tenha um foco. Eu tenho o meu, qual é o seu? – ah, eu sei jogar xadrez, o ataque é sempre a melhor defesa.
            Ele ficou meio desconcertado por alguns instantes e foi desmoronando na cadeira mais próxima. Sua expressão de raiva deu lugar a uma outra, de derrota, talvez. Parecia vencido, desgastado, desiludido. Quando recomeçou a falar, seu tom era baixo, achei que estava chorando, mas não.
            - Eu não tenho jeito, Mari, não vou lugar nenhum. O máximo que vou conseguir é uma faculdade dessas bem desclassificadas e olhe lá. Perdi muito tempo ficando suspenso, estive sempre metido em confusão, sou o maior frequentador da sala da coordenação. Meus pais já vieram aqui tantas vezes que nem contam mais. A escola só me tolera porque tem minha irmã também. E nesse tempo em que estive nas minhas confusões, perdi aula, perdi oportunidades, enfim... – ele está mesmo fazendo essa cara de criança que caiu do balanço? Como assim? Cadê o Fernando bravo, valente e atrevido?
            - Bom, se você não for ter pena de si mesmo, posso ajudar. – propus, afinal tenho um coração.
            Finalmente, quando ele me olhou, longos minutos depois, parecia menos mal. Mas só um pouco, o caso era grave!
            - Você sabe fazer mágica? – ok, ele quer ser irônico, mas não vai conseguir. Não sou a mãe dele nem a babá.
            - Não sei, sei apenas que temos tempo para estudar até chegar o final do ano quando chegarem os vestibulares. E aí, vai perder tempo morrendo de pena de si mesmo ou vai fazer alguma coisa de útil por si mesmo, mauricinho? – ah, Fernando, se vai ficar por perto, então você vai sofrer comigo, não sei fazer outra coisa.
            - Ok, quais são os planos? Ah, e pare de me chamar de mauricinho!
            - Não tenho grandes planos, apenas um agora: estudar! Vou passar para Engenharia Civil e você? Vai passar para que curso? – vamos testar para ver de que material esse brigão é feito.
            - Eu? Sei lá, nunca pensei nisso.
            - Então pense! E, enquanto pensa, podemos agarrar cada minuto como se fosse o último e dedicar aos estudos. Sem brincadeira, sem bilhetinho, sem brigas com os outros alunos, sem correr risco desnecessário com a coordenadora. E aí? – vamos no limite do rapaz, afinal ele não gosta de uma boa briga? Vamos brigar pela vaga na faculdade! – Levanta, Fernando, vamos para casa, já estamos perdendo tempo.
            - Ok, mas você vai se arrepender de estar perdendo tempo comigo.
            - Fernando, você ainda não entendeu, né?! Eu vou fazer dar certo! Caso contrário, se você quiser brincar demais e perder seu tempo, dou um chute em você e só voltamos a nos falar depois do vestibular, entendeu? Bom, depois do vestibular, as aulas terão terminado, vou para faculdade, então acho que não nos falamos nunca mais... Se é o que você quer... – que moço difícil, credo! É preciso argumento demais!
            - Bom, vamos tentar, o pior que pode acontecer é não nos falarmos? Posso tentar viver com isso. Você pode? – ele ainda ia ser arrogante? Sim, ele ia, é da sua natureza!
            - Estou indo para casa, você vai ficar aí? – falei para encerrar o assunto. Recolhi minha mochila e fui saindo na frente.
            Quando ele me alcançou, alguns passos adiante, passou o braço por cima dos meus ombros. Achei estranho, perto demais, mas não ia começar outra discussão, estava querendo mesmo era chegar em casa e tomar um banho. O nariz dele estava encostado no meu cabelo, será que está limpo? Ah, não acredito que estou pensando nisso. Não pensava que ele era mais alto que eu assim, desse jeito! Ah, eu estou quase me arrependendo de ter feito essa proposta idiota de ajudar, não consigo me concentrar com ele tão perto. Ficamos ali calados, perto demais um do outro, esperando nossos pais virem nos buscar.
Quando minha mãe chegou, virei antes de entrar no carro e falei para ele:
            - Às duas horas, na minha casa. Estejam lá, você e sua vontade de estudar, caso contrário, rua!
            A resposta dele foi um sorriso. Lindo demais para não ser de um deus grego. Mas eu não posso pensar assim... Quando entrei no carro, minha mãe não falou nada, mas conheço a dona Socorro:
            - Pergunta logo, mãe.
            - Bom, não ia falar nada, mas se você insiste.
             E a conversa girou em torno da presença próxima demais do Fernando, do sorriso idiota que brotava de instante em instante no meu rosto, das tardes que ele passaria lá em casa estudando, falei esperando a autorização dela depois de ter explicado a situação dele.
            - Minha filha, já estava ficando preocupada com você. Você leva as coisas muito a sério e esse moço parece uma ótima companhia. É divertido, educado e, se você vai ajudá-lo, fico muito feliz. Essa é a menina que eu criei, não aquela mal-humorada que anda pelos cantos lá em casa. É isso mesmo, bola frente que atrás vem gente!
            - Eita que esse saiu do fundo do baú, mãe!
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sábado, 29 de dezembro de 2012

1996 (com Fernando) - parte II


            Deitada na cama, Mariana sorria depois de muito tempo chorando de saudade antes de dormir, pois parece que à noite era a hora que mais doía tudo.
            Ela sorria agora lembrando que Fernando tinha contado que durante o ensino médio tinha se metido em muitas brigas, por isso tinha sido tão simples tirar alguém da sua própria cadeira quando resolveu sentar perto dela. E no final, meio que se desculpando pela ousadia e pelo temperamento, deu de ombros:
            - Aquele carinha nem queria sentar ali mesmo!
            Ela ria sozinha olhando o teto do quarto naquele sábado à noite, indiferente aos programas que os da idade dela gostavam de fazer. Tinha sido uma semana menos difícil que as anteriores, logo no começo da amizade deles, pois agora ela resistia mais ao ímpeto de expulsá-lo para longe dela. Dava menos respostas atravessadas às perguntas dele e estava aprendendo que ele era persistente sem ser chato.
            Bem longe, ouviu o telefone tocar, mas não iria atender, estava de pijama, dentes escovados, pronto para “cair nos braços de Morfeu”, como diria a tia Tereza, irmã da mãe.
            - Mari, é para você.
            - Diz que eu estou dormindo.
            - Bom, até disse, mas esse rapazinho não engole essas desculpas esfarrapadas não.
            Ela podia até adivinhar o sorriso dele do outro lado da linha.
            - Alô. – a voz tentava disfarçar a ansiedade. Era ele mesmo? Não, não podia, ele não tinha seu número.
            - Oi, Mari, queria saber se você quer ir ao cinema comigo. – a voz dele era inconfundível. Fernando.
            - Eu estou dormindo. – ela disse quase rindo.
            - Mesmo? Podia jurar que não. Se você for sonâmbula vou rir muito da sua cara.
            Moço insuportável – ela pensava.
            - Bom, já que não quer sair, estou indo aí levar um filme para assistir com você e com a sua mãe.
            - Claro que não, está tarde.  E minha mãe não gosta de visita assim, sem avisar.
            - Pois passe para ela que vou avisar.
            Gesticulando para a mãe ser sua cúmplice e negar o convite, Mariana entregou o telefone. Não podia ouvir o que ele dizia, mas a mãe toda contente já abria um sorriso enquanto ouvia o que o rapazinho queria.
            - Claro que pode, meu filho, está tão cedo. – escutou um pouco e continuou. – Não, ela não ia dormir agora não, ela estava estudando, já disse até para ela não estudar tanto. É bom que ela se distraia. – mais um instante escutando a voz do outro lado da linha. – Qualquer um que você trouxer, meu filho, pode vir.
            Mariana de boca aberta e cara fechada, mal podia conter a raiva... Raiva mesmo? Ou ela estava se divertindo com aquele moço insuportavelmente inconveniente e ... Procuraria outro adjetivo que lhe coubesse. Bom, ela ia ter o tempo de um filme para encontrar.
            Alguns minutos depois, ele chegou trazendo filme e pizza. Muito educado, apresentou-se à mãe e esta, toda solícita e simpática, recebeu o moço como se já o conhecesse há muito tempo. Mais conversaram do que realmente prestaram atenção ao que passava na tela à frente deles, ficaram sabendo muito da história uns dos outros.
Fernando era o irmão mais velho e a irmã estudava na mesma escola. Praticava judô desde os cinco anos por recomendação do pediatra “para controlar a personalidade impulsiva”, mas ele não concordava, achava-se muito tranquilo, mas continuava indo à academia para satisfazer a mãe. Estava repetindo o ano escolar porque as notas não eram muito boas, além de ter tido catapora no período de recuperação, o que o desestimulou mais ainda com os estudos, mas tinha sido interessante, porque agora ficava na mesma sala que Mariana. Falava abertamente sobre isso, sem esconder sua satisfação, mas sem expor a moça que estava tossindo, engasgada com refrigerante.
Dona Socorro contava que sentia muita saudade do marido que passava a maior parte do tempo fora de casa, pois trabalhava em uma plataforma de petróleo. Investia esse tempo fazendo alguns cursos de artesanato, culinária e pintura. Mariana era seu maior orgulho, era uma excelente aluna e já tinha decidido que faculdade faria: Engenharia Civil.
Mariana não falava muito, apenas se manifestava quando a mãe ia se aprofundar demais em assuntos muito íntimos relacionados ao ano anterior, coisas que ela preferia não mencionar na frente de Fernando, mesmo achando que ele sabia de muitas daquelas cicatrizes. Mais ouviu que falou, afinal aquele rapazinho gostava tanto de conversar, abria assim tão fácil sua vida que ela estava encantada, pois não tinha essa capacidade. A conversa também serviu para que ela entendesse o episódio da mudança de lugar na sala, Fernando não era muito de argumentar quando queria algo e, se ele ia mudar de lugar, nada o impediria de tomar a cadeira de quem fosse, afinal quem o desafiaria? Ela imaginou quantas vezes o rapaz já teria visitado a sala da coordenadora, mas preferiu não perguntar. A estratégia do judô não tinha contribuído muito para apaziguar a ferocidade do rapaz, mas, analisando o outro lado, ele parecia doce enquanto conversava com sua mãe, tímido quando admitiu não saber dançar e compreensivo quando, pacientemente, propôs esperar o tempo dela.
Eram quase 23h00 quando a mãe dele veio buscá-lo e dona Socorro se despediu prometendo convidá-lo para almoçar com elas num sábado. Mariana não parecia muito interessada, estava tão pensativa diante de tanta coisa que ouviu do rapaz que não dimensionou o convite.
A mãe parecia nas nuvens: que rapaz educado, Mariana! Que rapaz isso, que rapaz aquilo! Que menino bonzinho! Ok, ela não iria contar agora como o menino bonzinho assustava os colegas de sala, deixaria a mãe com a impressão boa que ele tinha causado.
            Enquanto não voltava aos braços de Morfeu, a moça tentava analisar as entrelinhas do discurso do rapaz. Mas seria que tinha entrelinhas? Será que ele não era mesmo tão simples como demonstrava ser? Será que...? Mariana dormiu e talvez até sonhou com o rapaz, mas não é de bom tom invadir os sonhos de mocinhas tão sérias como ela.
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            Fiquei ansioso, olhando horas e horas para o papelzinho que minha irmã me entregou com o telefone da Mariana. Mas, no final, nem precisava de tanto drama: deu tudo certo, a mãe dela me ama, agora falta conquistar a filha.
            Preciso controlar essa minha personalidade difícil e essa minha ansiedade. Droga! Ela não precisa conhecer meu lado rebelde todo de uma vez. É claro que não vou mentir, mas também não preciso assustá-la, nesse instante é tudo de que não preciso. Como da outra vez não! Droga! Por que, às vezes, eu não sei conversar? Por que não consigo colocar em prática o que andava treinando? Sou tranquilo, mas meus limites são muito estreitos em algumas situações...
            Finalmente, depois que crio coragem para ligar e jogo maior charme para cima da mãe dela, a menina resolve dizer que está dormindo! Mas não eu ia recuar nem um centímetro da minha decisão: posso ser tímido, mas uma vez que decido algo, ninguém me segura. Acho que é nesses momentos que, quando desafiado, sou irracional. Na escola não posso mais, se eu aparecer na sala da coordenadora, ela disse que será a última vez. Na penúltima, o menino na cadeira ao meu lado estava de nariz quebrado!  Droga! Mas quem mandou ele mexer com minha irmã? Nem ligo! Bom, não ligava, agora preciso terminar o ensino médio e sair dali antes que minhas chances esgotem: as que ainda tenho com Mariana e com a coordenação.
            Mariana estava muito linda e, com aquele ar de quem realmente ia dormir, parecia menos hostil. Droga de menina difícil! Mas todas as vezes que ela quis me rejeitar, parecia mais desafiador como numa luta de judô em que se usa a força do adversário contra ele mesmo. Ah, Mariana, serei seu desafio e você não escapa! Passei o ano inteiro lutando contra minha timidez, mas agora, na mesma sala que você, usufruindo de pequenas oportunidades, vou fazer você me querer como aquele carinha sem sal não soube fazer. Ainda bem que ele sumiu! Perdi a primeira luta, mas agora o campeonato é meu!
            A mãe dela é bacana, parece aliada e basta me comportar como a mamãe me ensinou que serei a visita mais constante e agradável daquela casa. Ela conversa bastante, vou descobrir tantas coisas sobre a Mari que ela nem imagina. Não sou um menininho idiota, sou um homem decidido e terei que quero. Mas vou dar um tempo para ela, sei como deve ter sido ruim durante o ano passado quando a amiga dela morreu. Eu ia para a mesma festa e no mesmo carro, mas, na última hora desisti, teria dança demais para meu pequeno repertório. Credo! A notícia do acidente desabou em cima de todo mundo da escola, mas acho que a Mari foi a mais sentiu, afinal era a melhor amiga dela. Já senti coisa parecida, mas não quero pensar nisso agora. Quero dormir com o cheiro da Mari na minha memória, com o sorriso dela cravado no meio do meu cérebro, decorar os gestos tímidos e mal disfarçados para quando ela quiser fingir que não me quer por perto. Ah, Mariana, sei exatamente que essa sua mania de rejeitar as pessoas é medo de que tudo se repita, já senti isso, apenas reagi diferente de você.
            Droga! Amanhã tenho que acordar cedo, mas ainda estou aqui pensando que não dei um beijo nela. Pensando que não sei quanto tempo vou ter que esperar por ela, mas prometi e vou cumprir. Preciso dormir, preciso dormir! Tenho luta amanhã, mais um domingo de campeonato e vou ganhar, sempre ganho! Quando vou ganhar a Mariana? Droga! Por que eu disse que ela ia ter que pedir para me beijar? Sou muito autoconfiante! Isso nem sempre me ajuda! Amanhã penso no que vou fazer com essa menina!

sábado, 22 de dezembro de 2012

1996 (com Fernando)


            Mariana acordou na manhã seguinte com muita dor de cabeça. A festa tinha durado até às duas da manhã e ela nem sabia direito de onde tinha tirado tanta força para dançar naquela sandália de salto enorme. Bem, se ela soubesse que ia dançar, tinha usado algo mais confortável, mas tinha sido obrigada pelas circunstâncias.
            O rapazinho, Fernando, não tinha dado opção, pois a perseguiu durante os “parabéns para você” e demonstrou que não ficaria sozinho o resto da noite: ou ela ficava lá e conversava com ele – sendo intimidada por ele, talvez essa fosse a melhor forma de definir – ou ia para pista de dança, que ela descobriu muito rápido não ser a praia dele, quando a prima dela veio convidá-lo para dançar. Elegantemente, ele recuou diante do convite:
            - Não posso, não sei dançar, sou muito desastrado.
            Foi o momento perfeito, ela se livraria daquela conversa inconveniente naquele momento e foi quase pulando com a prima para a pista. Ufa!
            Aproveitaria o momento da dança para tentar processar o ocorrido, mas a música era alta demais e agitada na mesma proporção. Na volta para casa, a mãe bombardeou: quem era o rapaz, já se conheciam, como ele era lindo, parecia muito educado, blá blá blá... e veio a dor de cabeça. Como a mãe podia pensar que aquele moleque inconveniente era educado?
            Ainda bem que era véspera de feriado prolongado e não teria que ver o moço – para não chamar de outra coisa – na escola. Coitada da Mariana! Não tinha nem para quem contar, uma melhor amiga, talvez, mas Carolainne... Carolainne já não estava mais aqui, do lado dela para compartilhar a inquietação no peito; para ouvir a descrição do rosto do rapaz, quase perfeito pela ausência de espinhas típicas da idade dos adolescentes; para comparar o cabelo sem gel, diferente do que todos os rapazes estavam usando, com algum ator norte-americano; a amiga, com certeza, saberia que perfume era aquele que ele estava usando, meio amadeirado meio cítrico; e as lágrimas escorreram pelo rosto de Mariana como um açude que sangra.
            No meio das lágrimas, surgiu o rosto de Daniel, tão frágil e tão distante; viu os olhos dele tão meigos, tão dóceis, tão pacientes, totalmente diferentes dos olhos agressivos e indiscretos de Fernando; quase ouviu a voz de Daniel dizendo seu nome, mas era a de Fernando que estava mais próxima e recente. E quando percebeu que era absurdo demais o que estava fazendo, quase comparando os dois como se fosse um leilão, resolveu tomar o remédio que mãe entrou no quarto oferecendo e dormiu. Dona Socorro sabia que aquela não era a hora de encostar a filha na parede e arrancar dela o que estava sentindo, o que a fazia chorar. Era apenas hora de dormir.
            Mariana passou o resto do feriado calada, saía do quarto para ajudar a mãe com algum afazer doméstico ou comer – saco vazio não para em pé, filha! – mas depois voltava para o quarto e ia estudar. Ela tinha uma meta, não passaria no colégio tempo mais do que o necessário e estabelecido pela escola, nada de recuperação! Sairia dali o mais rápido possível, principalmente agora que teria que dividir o mesmo espaço com aquele... Aquele... Bom, ele mesmo!
            Na segunda-feira, não sabia direito o que estava fazendo, mas não queria mais fazer o mesmo caminho que tinha feito com Daniel no ano anterior, aquilo a deixava deprimida demais. Não que ela quisesse gargalhar, mas pararia de regar a semente da depressão no seu coração, por outro lado não iria podá-la, deixaria lá, quieta.
            Ao entrar na sala de aula, ao invés de fazer o que sempre fazia e entrar de cabeça baixa sentando na terceira cadeira da fila da parede, instintivamente olhou para o lado oposto da sala e deu de cara com ele sorrindo. Mas não para ela, talvez ele nem tivesse visto que ela tinha chegado, ele sorria para uma menina sentada na fila ao lado dele. Conversava tão animado que ela pode olhar para ele alguns instantes antes que a menina se desse conta e olhasse para Mariana, que, envergonhadíssima, desviou o olhar e sentou.
            Ficou inquieta durante todas as aulas antes do intervalo. Ao responder a chamada, tentou pensar que cara fazia, ele tinha comentado sobre isso. Como assim? Que cara era essa? Droga!
            Ao toque do intervalo, quase todos os alunos saíam da sala, mas ela sempre ficava. E ele veio sentar na cadeira à frente da que ela estava, meio de lado, meio de frente, meio dando atenção a ela, meio se preparando para ir embora, ela não sabia direito o que ele queria. Mas era hora de encenar a moça forte dos filmes de faroeste.
            - Oi, Mariana, como foi seu final de semana? – ele falava tão tranquilo e ela ali, se remoendo por dentro, para poder dar um sorriso falsamente despreocupado.
            - Oi. – respondeu friamente de meio sorriso no rosto, foi o máximo que conseguiu.
            - Como foi seu feriado? – ele queria uma conversa normal de amigos? Ela não podia acreditar.
            - Não é da sua conta. – disse sem sorriso mesmo.
            - Nossa, tão bonita e tão mal criada! Sua mãe sabe que você não coloca em prática as aulas de etiqueta que ela te dá? – e Mariana olhava de perto a graça do sorriso dele, tão perto, perto demais. Poderiam até ser amigos se tivessem se conhecido em outro momento, mas agora não, ela não queria correr o risco de perder mais ninguém.
            - Não é da sua conta, entendeu? Você não deveria estar aqui, você podia estar conversando com os seus amigos ou amigas, sei lá. Podia me deixar em paz como eu sempre fiquei, na minha.
            - Em paz... Sei, entendo seu ponto de vista, mas acho que não. Eu não tenho nada melhor para fazer e, além disso, não acho que você anda muito em paz. Seu nariz está avermelhado e inchado, podia apostar que você passou o feriado chorando e que eu fui o único momento divertido nesse tempo.
            Mariana pensou enquanto preparava a próxima resposta para deixá-lo sem graça e enxotá-lo dali, mas não conseguia articular nada que fizesse sentido. Racionalizando, era verdade, ele estava esfregando a verdade na cara dela. Passou mesmo o feriado chorando escondido no quarto enquanto tentava estudar e lembrava amargamente da amiga e do grande amor. Os poucos sorrisos que deu foram lembrando o jeito que ele tinha chegado à mesa para falar com ela, da força com que tinha segurado a mão dela e da forma tímida com que ele disse que não sabia dançar. Refletiu, ponderou, resolveu não responder.
            - Mari – vou te chamar assim – eu não vou te fazer nada de ruim. Para de olhar para mim como se eu fosse uma ameaça. Só quero ficar por perto, te ajudar quando precisar, te dar um ombro para chorar, não é legal chorar sozinho, disso tenho certeza. Acho você linda e quase te beijei na festa, mas prometo que não faço, não até eu saber que você também quer. Ia te roubar um beijo, mas foi melhor mesmo que você saísse correndo, às vezes sou muito impulsivo e me arrependo depois, podia ter sido minha última chance naquela noite, ainda bem que foi diferente. Eu posso?
            Ahn? Mariana não entendia aquele rapaz, ele era difícil de ler, diferente das outras frágeis pessoas que tinham tentando se aproveitar da dor dela. E agora ele estava fazendo uma proposta irresistível e tinha falado alguma coisa sobre beijo, mas ela não sabia direito o que tinha sido, era informação demais. O que era mesmo que ele estava pedindo autorização a ela?
            - Posso ficar por perto sem correr o risco de você querer me chutar como faz com todo mundo? Bom, posso até deixar você me chutar, mas saiba que vou revidar.
            - Tanto faz. – ela não sabia direito porque tinha respondido assim, mas devia ser curiosidade, ele era atrevido, parecia saber exatamente o que queria. E ela não estava acostumada a lidar com pessoas assim, a não ser a mãe, mas com ela não tinha jeito, era fazer e pronto.
            - Bem, acho que posso conviver com isso, por enquanto, é melhor que um “não”, mas vou exigir mais de você, além desse seu mau humor. Ele te deixa feia e você não é.
            Literalmente, Fernando deixava Mariana sem respostas.
            Decidido, ele atravessou a sala e pegou o caderno deixado na cadeira do lado oposto da sala. Agora ele sentaria ali, do lado dela da sala, na cadeira de trás.
            - Já tem alguém sentando aí. – ela ainda tentava escapar da proposta.
            - Tinha. – e ele pegou a mochila que estava na cadeira que ele queria sentar e colocou em outra, ao lado, e que já estava ocupada. Como aquilo ia se resolver quando desse o sinal encerrando o intervalo?
            De uma maneira bem discreta a coisa foi arranjada, Mariana não entendeu direito porque, mas quando os alunos voltaram para a sala de aula ao final do intervalo, simplesmente o garoto que ela julgava estar ocupando a cadeira que Fernando sentava agora, pegou a mochila e sentou em outra cadeira vazia. Enquanto isso, Fernando assobiava tranquilamente uma canção de uma banda que ele adorava: Engenheiros do Hawaii. Como ele podia ser tão tranquilo? Mariana se pegou querendo saber coisas demais sobre ele.
            O resto das aulas daquela manhã foram assim: o professor falava alguma coisa engraçada, Fernando dava uma gargalhada; algum aluno fazia um comentário desnecessário, ele retrucava baixinho só para Mariana ouvir, e ela queria rir e não rir ao mesmo tempo; passou bilhetinhos por baixo do braço dela com letras de música; respondia baixinho quando o professor fazia alguma pergunta, mas não demonstrava querer participar da aula; era inquieto e deixava Mariana desconfortável, afinal ela tinha passado muito tempo tentando aquietar o próprio coração, mesmo sem êxito algum.
            Ao final das aulas ela tinha um monte de anotação no caderno e ele, nenhuma.